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— Crónicas

Comprei um biquíni fio dental aos 58 anos — e descobri mais do que esperava

Há decisões que se tomam num provador. Outras tomam-se à frente de um ecrã, às onze da noite, com o dedo suspenso sobre o botão “comprar”. A minha foi destas — e, como quase tudo o que faço ultimamente, começou com uma pergunta perigosa: porque não?

A culpa foi do algoritmo (ou talvez não)

Foi no mês passado. O verão aproximava-se com aquela pressa que só o verão tem, e eu andava à procura de biquínis novos. Pesquisa daqui, pesquisa dali, cruzei-me com uma marca que tinha uns modelos diferentes — cortes modernos, desenhos bonitos, daqueles que fazem uma mulher parar de fazer scroll.

Mas havia um detalhe. Um detalhe pequeno, aliás, era esse o problema: eram fio dental.

Eu, Ana Paula, 58 anos, uma vida inteira de biquínis “normais” — desses que cumprem, que tapam, que não levantam ondas — estava a namorar um fio dental. Confesso que fiquei ali uns minutos, entre o riso e a vertigem. Nunca tinha usado um. Nunca tinha sequer considerado usar um.

E depois pensei naquilo que ninguém diz em voz alta: nunca me senti tão bem no meu corpo como agora. Anos de cuidado, de treino, de escolhas — sim, daquelas escolhas saudáveis que eu e as minhas amigas levamos quase tão a sério como o café da manhã — deram-me um corpo tonificado de que me orgulho. E uma certeza atrevida: aquele biquíni ia ficar-me bem. Principalmente no rabo, vá, digamos as coisas como elas são.

Cliquei em “comprar”. E só depois é que pensei no Carlos.

O marido, esse território conhecido

O Carlos e eu estamos casados há 26 anos. Vinte e seis. É mais tempo do que algumas das minhas leitoras têm de vida, e é tempo suficiente para conhecer todos os silêncios um do outro. Somos unidos, alinhados, daqueles casais que ainda se procuram no sofá ao fim do dia. Do amor, não tenho dúvidas. Nunca tive.

Mas o amor é uma coisa. O desejo é outra. E entre a compra e a entrega da encomenda, instalou-se em mim uma dúvida que não esperava: o que vai ele pensar? Será que vai achar que aquilo “é para miúdas”? Será que vai sorrir daquela maneira condescendente que os maridos às vezes têm, como quem diz “querida, sê razoável”?

Vinte e seis anos de casamento e ali estava eu, nervosa como uma adolescente antes do primeiro baile. Quem diria.

Algarve, primeiro dia, momento da verdade

Este fim de semana, com o calor a voltar em força, fugimos uns dias para o Algarve. Primeiro dia de praia, areal dourado, aquele cheiro a sal que faz qualquer mulher sentir-se personagem de filme. Respirei fundo, despi a túnica e fiquei ali, de fio dental estreado, à espera do veredicto.

“O que achas?”, perguntei.

Ele sorriu. “É giro. Fica-te bem.”

É giro. Fica-te bem.

Fiquei aliviada, claro. Não houve drama, não houve sermão, não houve o temido “isso é para miúdas”. O Carlos foi o Carlos: tranquilo, afável, confortável. Mas, minhas queridas, vou ser honesta convosco, porque foi para isso que abri este diário: senti falta de uma chama. De um olhar que demorasse. De um silêncio diferente. “Giro” é o que se diz de uns calções novos. Eu não queria estar gira. Eu queria estar… outra coisa.

E lá ficou a pergunta a marinar debaixo do chapéu de sol: será que ele ainda me acha sexy? Será que eu fico sensual com este biquíni — ou estou só a enganar-me ao espelho?

A resposta veio do areal

A dúvida, descobri, não durou muito. Bastaram as horas seguintes.

Cada vez que me levantava para ir à água, cada passeio pelo areal, senti-os: olhares. Discretos uns, nem por isso outros. Olhares que seguiam o meu corpo — e, sejamos precisas, principalmente o meu rabo — com aquela atenção que não deixa margem para interpretações diplomáticas.

E não vos vou mentir, porque prometi não o fazer: gostei. Gostei daqueles olhares. Não pelo que diziam dos outros, mas pelo que confirmavam de mim. O meu corpo está bem. Está cuidado, está tonificado, está vivo. Aos 58 anos, num fio dental que há um mês me parecia uma loucura, senti-me sexy. Eu. Sem precisar de autorização de ninguém.

Voltei para a toalha com um sorriso que o Carlos não percebeu de onde vinha. E talvez seja esse o segredo que vou guardar para o resto do verão.

A pergunta que fica (porque há sempre uma)

À noite, na varanda, com o mar a fazer aquele barulho de quem sabe segredos, dei por mim a pensar: durante quantos anos esperei que o desejo me fosse dado, como quem espera um presente — do marido, dos outros, do espelho — quando afinal ele sempre esteve à minha espera, dobrado numa gaveta, à espera que eu tivesse a coragem de o vestir?

O Carlos ama-me, disso não duvido. E a chama dele talvez precise apenas do que a minha precisou: de um verão inteiro para acordar. Pode ser que, entre mergulhos e jantares, seja o olhar dele a despertar para este corpo que eu, finalmente, aprendi a olhar primeiro.

Não posso deixar de me perguntar: será que o mais sensual num fio dental não é o tecido que falta, mas o medo que deixamos de ter?

Com um beijo e alguma audácia (desta vez, literalmente),<br>Ana Paula

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